segunda-feira, 11 de maio de 2015

Detalhes fazem a diferença na economia doméstica

Especialistas apontam os vilões da gastança e ensinam a poupar sem passar aperto no dia a dia
O diabo mora nos detalhes, já dizia um provérbio alemão. E, para a economia doméstica, eles realmente são vilões, ao menos na visão de especialistas. Sendo assim, cabe a cada consumidor se policiar e, principalmente, traçar objetivos tanto financeiros quanto de vida para reduzir o risco de perdas.
Elenilde Maria Lopes, vigilante de 46 anos, moradora do Cruzeiro, divide um apartamento com a mãe, a irmã, a sobrinha e o cachorro  da família. Principal responsável pela administração das finanças da casa, ela estima que os maiores gastos são com comida. “Quase todo fim de semana recebemos nossos irmãos para almoços”, diz.
Na hora de abastecer a dispensa, ela tenta selecionar os produtos em promoção das marcas que confia. Sua estratégia  é fazer uma compra mensal grande, que sustente a casa por pelo menos 30 dias, e, semanalmente, repor produtos pontuais como  carne e verduras.
Visitas
 “Algumas vezes as visitas trazem coisas para ajudar, mas grande parte do tempo somos nós mesmos que bancamos”, relata, observando que isso dificulta que as compras durem o tempo estimado. Apesar disso, ela considera os custos “normais” e se revela mais preocupada com a conta de água.

“Pagamos uma média de R$ 300 por mês”, admite. Ela não revela a receita mensal do lar, mas garante que seria possível reduzir as despesas se for necessário.  Para o consultor financeiro Reinaldo Domingos, autor do livro Terapia Financeira, não é tão simples.
“Controlamos prestação de carro e mensalidades de escola. Esses são fáceis de enxergar. São os pequenos custos – R$ 2 num cafezinho ali, R$ 4 para outra coisinha aqui – que minam a educação financeira de cada um”, explica. Ele exemplifica a situação mostrando que, se uma pessoa gasta R$ 4  todo dia, seja dando esmola ou comendo salgadinho, ao final de 30 anos ela terá desperdiçado R$ 280 mil. “Dinheiro que poderia ter sido aplicado”, adverte.
Despesas 30% menores

Na casa da vigilante Elenilde Maria, sua sobrinha Maria Eduarda Ilorca, de 19 anos, entrega pequenos hábitos que encarecem os custos chamados essenciais (água, luz, telefone etc.). “Ela dorme quase todo dia com a TV ligada”, revela Maria Eduarda, que também é acusada pela tia de demorar muito ao tomar banho. As duas brincam com a situação, para depois admitirem que “não há como controlar o banho dos outros”. 
O consultor financeiro Reinaldo Domingos, porém, acredita que a maioria das famílias pode reduzir em até 30% seus gastos com as despesas essenciais. “A saída é uma reunião familiar. Esse exercício é o grande segredo para entender o que deve ser feito a curto, médio e longo prazo. Até o cachorrinho pode participar”, brinca.

Ele diz ainda que o principal é a família ou indivíduo ter bem traçados planos concretos de vida. É importantíssimo saber o padrão de vida que cada um quer levar e saber o modo como isso pode ser alcançado. Reinaldo acredita que, no caso de grandes famílias, se cada um souber que contribuindo para a economia doméstica saudável   estará mais próximo de alcançar um objetivo pessoal, a colaboração é mais natural. “Se a pessoa não souber o caminho que quer seguir não existe sonho, apenas pesadelo”, pontua.

Medidas simples, mas eficazes

A aposentada Laura Alves Marinho, de 66 anos, divide o apartamento com o genro, a filha e dois netos adolescentes, no Sudoeste. Separada há cinco anos do marido, hoje ela não se preocupa tanto com as finanças, tarefa do genro, mas contribui como pode para manter os gastos da residência sob controle. “Uso chuveiro frio quando vou lavar o cabelo, e mesmo assim tento ser rapidinha”, conta.

Outra atitude adotada por Laura para economizar é concentrar a lavagem das roupas de todos os integrantes da família em um único dia. Ela garante que o genro é “bastante controlado” com o dinheiro do apartamento e  isso garante mais estabilidade financeira ao lar. “Ele controla bem os gastos. Mesmo em cinco pessoas, nossa média é pagar R$ 150 em energia elétrica por mês”, afirma.

A aposentada, no entanto, admite ceder à tentação, vez ou outra, de um salgadinho ou outros petiscos, especialmente quando vai ao mercado comprar frutas e legumes. “Sempre compro o que eu gosto. Não dá para abrir mão desses prazeres, né”, diz a senhora. 

“Não temos característica poupadora”

Na opinião do economista e professor da Universidade de Brasília (UnB) Roberto Piscitelli a herança cultural brasileira contribuiu para o perfil “gastador” presente em boa parte da população. “Não temos característica poupadora. Período de inflação nas décadas passadas criou o costume de consumirmos tudo o que pudermos assim que recebemos nossa renda, para não perder a capacidade de compra”, analisa.

Segundo ele, somos uma sociedade de desperdício e temos pouca noção de como gastamos dinheiro frequentemente no dia a dia. “Importante é estabelecer ordens de prioridade. 'Ah quero trocar geladeira e fogão'. A pessoa deve ver qual é a prioridade e escolher: 'Ah, opto pela geladeira, porque senão a comida estraga'. Mas muitas pessoas acabam se atolando em dívidas simultâneas”, exemplifica.

Facilidades perigosas

Algumas facilidades como cheques pré-datados e parcelamento ajudam as pessoas a se “enforcarem” nas compras, mas Roberto Piscitelli  ainda acredita que as sutilezas são o grande pecado cometido na hora de cuidar da economia doméstica. 
“O caminho da transformação é verificar onde estão os gastos. Às vezes as pessoas gastam muito com gasolina, saem muito com os amigos e não se dão conta de que é a vida noturna que está sugando a grana. Para mudar isso, e uma série de outros hábitos, é preciso mudar o estilo de vida”, sentencia Piscitelli.

 Dicas para poupar mais

1. Faça financiamentos mais curtos e procurar os menores juros. “Se você dá um cheque pré-datado, não pode esquecer que no dia em que o credor estiver autorizado a depositar o cheque, é preciso ter dinheiro na conta”, exemplifica o economista Roberto Piscitelli

2. Tenha objetivos financeiros e sonhos bem definidos. “A educação financeira não está embasada em cálculos, mas em comportamento”, adverte o consultor financeiro Reinaldo Domingos

3. Anote todos os gastos, principalmente com pequenas coisas como cafezinhos e lanches rápidos, para verificar o dinheiro gasto ao longo do tempo. “Quando decidimos fazer seus orçamentos e anotar tudo rigorosamente, verificamos a quantidade de coisas inúteis que fazemos”, sentencia Roberto Piscitelli.

Pense nisso

O consumidor é “bombardeado” de informações que tentam induzi-lo ao fazer novas aquisições. E as aparentes facilidades, como cartão de crédito, são uma   corda para o próprio pescoço. Por isso, os economistas recomendam que se pergunte sempre: “Eu realmente preciso disso agora? Eu posso pagar?”. Seja sincero consigo mesmo na resposta.

Fonte: Da redação do Jornal de Brasília

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